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domingo, 18 de julho de 2010

As Luzes de Nosso Século



"Como seria doce viver entre nós, se a contenção exterior sempre representasse a imagem dos estados do coração, se a decência fosse a virtude, se as nossas máximas nos servissem de regra, se a verdadeira filosofia fosse inseparável do título de filósofo! Mas tantas qualidades dificilmente andam juntas e a virtude nem sempre se apresenta com tão grande pompa. (...) Antes que a arte polisse nossas maneiras e ensinasse nossas paixões a falarem a linguagem apurada, nossos costumes eram rústicos, mas naturais, e a diferença dos procedimentos diferenciava, à primeira vista, a dos caracteres.

Atualmente, quando buscas mais sutis e um gosto mais fino reduziram a princípios a arte de agradar, reina entre os nossos costumes uma uniformidade desprezível e enganosa, e parece que todos os espíritos se fundiram em um mesmo molde: incessantemente a polidez impõe, o decoro ordena: incessantemente seguem-se os usos e nunca o próprio gênio. Não se ousa mais parecer mais como é e, sob tal coerção perpétua, os homens que formam o rebanho chamado de sociedade, nas mesmas circunstâncias, farão todos as mesmas coisas desde que motivos mais poderosos não os desviem.

Que cortejo de vícios não acompanha essa incerteza! Não mais amizades sinceras e estima real; não mais confiança cimentada. As suspeitas, os receios, os medos, a frieza, a reserva, o ódio, a traição esconder-se-ão todo o tempo sob esse véu uniforme e pérfido da polidez, sob essa urbanidade tão exaltada que devemos às luzes de nosso século."  

Jean-Jacques Rousseau - Discurso sobre as Ciências e as Artes