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segunda-feira, 23 de maio de 2011

Abyssimus



A meia luz do pequeno quarto dela me revelava um cenário familiar e atraente. Deitada na cama, semi nua e coberta apenas com um fino lençol de seda, a visão de seu corpo era espetacular. Ela se espreguiçava, lentamente, com cabelos quase loiros espalhados pelos ombros.

Abriu os olhos, devagar. Aqueles olhos, por vezes cinzas e por vezes cor de mel. Olhos que já quebraram tantos corações, inclusive o meu. Mas não se atente aos lamentos deste pobre narrador - ele agora é apenas uma brisa, um fantasma que se pendura no ventilador deste pequeno quarto, dentro de um pequeno apartamento, localizado nos Alpes suiços e no sul da Espanha ou, quem sabe...aqui?

É uma estranha sensação sentir-se onipresente. Eu ouvia os suspiros daquela garota desconhecida, examinava cada centímetro de seu corpo, sentia os pequenos cabelos da sua nuca arrepiarem, em ritmo lento, dançando como em uma valsa improvisada. Com um pouco mais de esforço, eu era capaz de ouvir até os seus pensamentos sussurados, distantes - com cada suspiro, ela tragava toda minha alma. As batidas do seu peito fariam Rachmaninoff se curvar humildemente, desistir de tocar o piano e acabar sua vida como vendedor de shashlik em alguma estação de trem em Moscou.

Em um momento como este é que somos levados a perceber o quanto os nossos sentidos, toda nossa ínfima racionalidade - e, ademais, tudo aquilo que assumimos como constituinte de nossa essência - são apenas as grades de uma jaula imunda que chamamos de vida. A realidade é que todo o gênero humano não passa de uma gota perdida em um oceano infinito; cada explosão cósmica é uma espécie de furacão passageiro, que surge dentro de uma mesma corrente de ar; tudo o que conhecemos são apenas notas dissonantes tocadas dentro de uma sinfonia silenciosa, eterna, etérea

Mas...aquele olhar.... ele... ele era a única coisa que me fazia sentir algo. Como uma lâmina retorcendo dentro de entranhas invisíveis, a força daqueles olhos puxavam o meu ser de volta para um resquício animal, selvagem, efêmero e impotente. Eu amava aquela mulher.

Isabella espreguiçou-se esticando as pernas, devagar, e suas mãos permaneciam pousadas como plumas brancas sobre os seus lindos seios que, belos e perfeitos, eram justificativas ideais para qualquer ato desmedido, epopéia continental ou guerra sangrenta. O seu cheiro era inebriante como a própria síntese da primavera, e seus doces lábios exalavam um elixir inesquecível - os religiosos que fiquem explorando, em vão, inúteis livros empoeirados, vivendo e morrendo trancafiados dentro de túmulos arquitetônicos - o verdadeiro templo e a verdadeira Deusa estavam ali, bocejando graciosamente, espalhados por entre os lençois macios daquela fatídica manhã.

Bella, imortalizada em seus vinte e poucos anos, levantou-se e abriu as cortinas, esperando ver entrar a claridade do dia que raiava ao longe. Mas não foi isso que ela viu.

Poseídon afogou Ulisses.
Minotauro dilacerou os ossos de Teseu
O abismo olhou de volta.

"É o fim", ela pensou, preocupada.
É o fim.

domingo, 24 de abril de 2011

Páscoa Caótica



Eu estava inclinado a escrever um post aqui sobre a minha imensa, gigantesca, fenomenal preguiça de encarar mais uma segunda-feira de trabalho exaustivo mas - depois de uma overdose de bacalhau, chocolate, feijoada, e uma maratona alcóolica que se estende desde a quinta feira - eu tive um insight e pensei com meus botões: "opa, escrever isso está dando trabalho!" decidi com sabedoria parar de querer fazer alguma coisa e, ao invés de postar algum texto mal-humorado sobre a miséria que a humanidade se enfiou quando teve a brilhante idéia de inventar o despertador, resolvi citar um dos textos mais .... mais.... interessantes (?) que eu li nos últimos tempos: o trecho abaixo é de uma obra chamada "Principia Discordia", e que serve para divulgar os preceitos, inpreceitos e não-preceitos do Discordianismo. 

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"Se a religião organizada é o ópio das massas, então a religião desorganizada é a maconha do limite lunático.

Como a religião mais desorganizada de todos os tempos, o Discordianismo entende que a ordem é obra do Diabo. O Santo Caos é a condição natural da realidade, ao contrário do que acredita a maioria da população. Teólogos citam a "ordem" na condição de que ela é prova de uma Suprema Inteligência, mas uma espiada é o suficiente para perceber que as estrelas do universo não estão exatamente enfileiradas e bonitinhas. A teologia é apenas um debate para apontar o culpado de criar nossa realidade, e o que nós imaginamos como "ordem" é apenas a forma que se apresenta em frente aos nossos olhos o imenso caos.

A cada alguns milhares de anos algum pastor inala fumaça de uma moita queimada e tem uma visão, ou come um pão bolorento em uma caverna e afirma que viu Deus; depois disso ele aglomera uma porção de seguidores que matam uns ao outros pela menor das provocações. Casas assombradas chamadas de "templos" são construídas por um lado e destruídas pelo outro - e assim continuam todas as lutas religiosas que nós conhecemos.

As religiões organizadas pregam ordem e amor mas apenas espalham caos e fúria. Por quê? 

Porque todo o Universo Material é propriedade exclusiva da deusa grego-romana do caos, confusão, brigas, e etc. Nenhum poder espiritual ou material é capaz de desviar das rodas dilacerantes de sua carruagem. Tudo isto foi revelado para mim com a ajuda da "pedra caótica", que liberou a percepção de minha glândula pineal, e desde então eu sou capaz de responder todos os mistérios da metafísica, metamística, metamorfologia, metanóia e metafóricas. 

Você também é capaz de ativar sua glândula pineal de uma forma simples: recite o conteúdo inteiro deste livro depois que acordar toda manhã, esfregue areia entre os olhos todas as tardes, bata a sua cabeça contra o chão cinco vezes por dia, evite matar as inocentes baratas e medite (ou seja, não faça nada e fique de olhos fechados esperando por boa sorte)

Aderir ao Discordianismo vai resolver todos os seus problemas e o Caos vai atender você para resolver todos os seus problemas; Nas páginas dessa magnífica obra você vai aprender a converter infiéis e irritar heréticos. Você também vai ser capaz de resolver charadas-zen do tipo: se Jesus era judeu, então porque motivo ele tem o nome de um porto-riquenho?

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Aleluia.

quinta-feira, 31 de março de 2011

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“Considerai primeiramente que, querendo formar um homem da natureza, nem por isso se trata de fazer dele um selvagem, de jogá-lo no fundo da floresta; mas que, entregue ao turbilhão social, basta que não se deixe arrastar pelas paixões nem pelas opiniões dos homens; que veja com seus olhos, que sinta com seu coração; que nenhuma autoridade o governe a não ser sua própria razão. Nesta posição, é claro que a multidão de objetos que o impressionam, os freqüentes sentimentos que o afetam, os diversos meios de prover a suas necessidades reais, devem dar-lhe muitas idéias que nunca houvera tido ou que houvera adquirido lentamente. O progresso natural do espírito é acelerado, nunca invertido. O mesmo homem que deve permanecer estúpido nas florestas deve tornar-se racional nas cidades, ainda que nelas seja simples espectador. (...) 

OH! virtude, ciência sublime dessas almas simples, serão necessários, então, tanta pena e tanto aparato para conhecer-te? Teus princípios não estão gravados em todos os corações? E não bastará, para aprender suas leis, voltar-se sobre si mesmo e ouvir a voz da consciência no silêncio das paixões? Aí está a verdadeira filosofia; saibamos contertarmo-nos com ela e, sem invejar a glória desses homens célebres que se imortalizam na república das letras, esforcemo-nos para estabelecer, entre eles e nós, essa gloriosa distinção que outrora se conhecia entre dois grandes povos: um sabia dizer bem e o outro obrar bem." 

*Jean Jacques Rousseau